PEDIDO Nº 04 

"QUE OS LIVROS VOLTASSEM A SER ÁRVORES"

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“Um dia estava limpando a estante de livros do depósito da biblioteca e vi, com surpresa, que dentro de um livro estava germinando uma planta. Não sei de que tipo era. Era miudinha, mas tinha raiz. O depósito, apesar do pouco sol que vem da janela superior, é muito úmido, tem infiltrações e estava abandonado. Já tinha encontrado antes coisas estranhas dentro de livros, como fotos antigas, cartas, bilhetes. Mas esta foi a coisa mais estranha que já encontrei. 

 

Tive admiração por aquela planta, sobreviver assim, em condições tão precárias... depois que tinha encontrado, não podia mais deixar ali. Não me parecia certo. Mas também não me parecia certo deixar o livro ser consumido pela planta. Tive que fazer uma escolha, que não foi nada fácil para mim. Aquela planta estava se alimentando do conhecimento que eu tenho a função de preservar. Mas acho que a capacidade de resistência e adaptação, apesar de toda e qualquer adversidade, é a maior das lições que se pode extrair de um livro. 

 

Levei o livro com a planta para casa e comprei um novo para repor à biblioteca.  Passei a regar a planta em casa todos os dias. Ela foi ganhando força, crescendo, pegando raiz. Redescobri o prazer do trabalho manual, de mexer com a terra. Quando criança adorava brincar com planta. E, pensando bem, isto tem muitas coisas em comum com minha profissão: são tarefas silenciosas, solitárias, meticulosas, de atenção e dedicação. Como se faz com as mudas, passo o dia selecionando, armazenando, classificando. 

 

Gosto quando o livro fica velho. Os livros, quanto mais velhos, mais parecem vivos. Eles vão se decompondo, começam a parecer terra. A matéria vai voltando ao seu estado original. O livro, no final das contas, um dia já foi árvore, são da mesma matéria. Talvez o livro mais velho do mundo já tenha voltado a ser uma árvore. 

 

Queria ter o dom de transformar a matéria das coisas, para preservá-las. Quero transformar a biblioteca em uma floresta inteira, quero que as pessoas aprendam das árvores. Quero que as crianças sejam alfabetizadas pelas árvores. Meu pedido, portanto, é poder transformar a biblioteca em uma floresta inteira.”

 

DIÁRIO DE OBRA: 

Para realizar este pedido, ao longo de vários meses percorri diversos sebos das cidades de Brasília, Porto Alegre, Juazeiro do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro. Adquiri alguns volumes antigos, separando-os não por temas, mas por cor e dimensão. Agrupei-os por pilhas, organizando os volumes por semelhança física. Depois fiz incisões nos livros, usando estilete. Feito isto, plantei diversas plantas dentro dos livros sem miolo. A instalação dos volumes é feita na parede com o suporte fino, quase imperceptível. Ao conjunto acrescentei fotografias compradas em feiras de antiguidade de Porto Alegre, que foram scaneadas e reveladas em Brasília. Estas foram cortadas em tamanho proporcional aos livros e emolduradas em Juazeiro do Norte. Alguns itens são expostos sem moldura, para que se veja as marcas do tempo no papel.

 

CERTIFICADO DE AUTENTICIDADE: 

Declaro, para os devidos fins legais que o resultado obtido é a evidência concreta e incontestável da situação descrita pelo cliente, apesar das notórias discrepâncias cronológicas. Atesto não haver distinção de valor ou intensidade entre esta lembrança e qualquer outra de categoria similar, já ocorrida ou ainda por ocorrer.

 

Itens:

• Livros de cores e tamanhos variados.

• Plantas diversas. 

• Registros Fotográficos.

 

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