PEDIDO Nº 03 

"ANDAR A CAVALO

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“Tive uma infância bem feliz, cresci em um sítio, cercado de animais, de natureza, de verde, de terra. Estava acostumado a ajudar meu pai a cuidar de animais. Talvez, por isso, a ideia de bicho de estimação sempre foi muito estranha para mim. Todos eles viviam lá, como eu, como minha mãe, como meu pai. Eles faziam parte da nossa vida, faziam parte da fazenda. A ideia de possuir um bicho, escolher só um para mimar, dar banho com xampu, passear, para morar em casa como se fosse gente, é bem distante da relação que eu tinha com os animais do sítio. Mas isto não quer dizer que eu não tivesse um bicho preferido. Eu tinha. 

 

Quando eu era criança, ganhei do meu tio um pônei. Eu adorava aquele bicho. E ele era pequeno como eu, então eu tinha até facilidade para montar o pônei sozinho, para controlá-lo. Mas eu fui crescendo e o pônei continuou pequeno. Eu não sabia o porquê, achava que ele tinha que crescer também, ficar alto como os outros cavalos. Achei que ele ia sempre ter o meu tamanho. Achava que um dia ele pudesse ser um cavalo de corrida, que eu iria participar de competições, saltar obstáculos com ele. Comecei a achar que tinha alguma coisa errada com as patas do bicho, não sabia que era da raça dele ser assim. Queria curar ele. 

 

Por isso, fui tentar esticar as patas do pônei. Fiz muita força, usava corda, puxava, ele passava a noite amarrado, com as pernas esticadas. Tentei ensinar ele a pular a cerca. O bichinho sofreu muito.  Morreu quando eu tinha 16 anos. Depois que fui saber que aquilo era maldade, que ele não ia crescer mesmo. Quando agente é ignorante faz estas coisas. Hoje eu não faria mais isso. 

 

Mas já saí do sítio, agora moro em apartamento pequeno na cidade, com minha mulher e meus filhos. Meus meninos nunca vão poder conviver com cavalo, só carrossel no parque de diversões e cavalo de brinquedo em casa. Nunca vão ter a oportunidade que eu tive e usei mal. Meu pedido, portanto, é que meu pônei tivesse crescido comigo, que tivéssemos juntos conquistado grandes campeonatos de hipismo, que tivéssemos vivido todos estes anos juntos, e eu e ele nos tornasses velhos naquele sítio que foi do meu pai.”

 

DIÁRIO DE OBRA: 

Para produzir esta lembrança inventada, recorri aos álbuns de família do homem que fez o pedido. Incorporei ao trabalho a fotografia que ele tinha de quando era criança, em que aparece montado no pônei ao lado do tio. A segunda imagem, em que ele aparece saltando de um obstáculo em um cavalo de corrida, assim como a terceira, em que ele está velho, ao lado de outro cavalo, são fotografias de anônimos, compradas em feiras de antiguidade de Porto Alegre. A terceira fotografia indica a passagem do tempo e o fim, tanto da curta vida do pônei, quanto das expectativas bucólicas do homem, que fez o pedido de uma velhice feliz no sítio que era do pai, ao lado de seu cavalo de estimação, agora um cavalo de corrida de altura invejável.

 

CERTIFICADO DE AUTENTICIDADE: 

Declaro, para os devidos fins legais que o resultado obtido é a evidência concreta e incontestável da situação descrita pelo cliente, apesar das notórias discrepâncias cronológicas. Atesto não haver distinção de valor ou intensidade entre esta lembrança e qualquer outra de categoria similar, já ocorrida ou ainda por ocorrer.

 

Itens:

• Registros fotográficos

• Cavalos de brinquedo

 

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