PEDIDO Nº 01 

"TER CONHECIDO MINHA TIA"

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"Quando eu era jovem, eu convivia muito com a minha avó. Eu perguntava para ela sobre a família, sobre os parentes distantes, os que eu nunca conheci. Um dia perguntei de uma tia, que eu sabia que tinha morrido ainda pequena. Minha avó contou que ela ficou doente, mas ninguém sabia o que ela tinha. Minha avó cuidava dela como podia. Não tinha hospital, nem médico. Ela morava na roça, longe de tudo. Ela só podia cuidar como sabia. Minha avó ia todo dia à igreja orar por ela. Um dia disseram que naquela noite Deus levaria a menina. Minha avó disse que chorou até não conseguir mais. Depois se conformou. Ela sabia no fundo que a menina ia morrer. Minha avó voltou para casa aquela noite continuou cuidando dela, muito triste. A menina, segundo minha avó, foi amofinando, ia ficando amuada, cada vez mais quieta e calada, até que morreu assim...quietinha como um passarinho. Meu pedido é que esta menina, que hoje seria minha tia, não tivesse morrido como um passarinho, mas que ela tivesse voado como um pássaro veloz para longe daquele lugar, que ela tivesse feito ninho em uma outra árvore, que ela pudesse brotar da terra denovo, germinar, ter filhos, e que eu tivesse sido amiga destes primos que nunca tive."

 

DIARIO DE OBRA: 

Para construir esta lembrança inventada, primeiro fui conversar com a avó da pessoa que fez o pedido. Concentrei-me na metáfora “e ela morreu assim....quietinha como um passarinho” e tentei compreender o que significava morrer 'quieto como um pássaro'. Por coincidência, na semana seguinte, caiu do teto da minha casa um ninho durante a tempestade da noite. Ví os ovos estraçalhados no chão, com pequenos fetos de passarinho dentro. Começei a guardar ovos quebrados. Na cozinha, sempre que iria preparar alguma receita, quebrava o ovo só em cima e guardava o resto. Um dia pensei em fazer alguma coisa nascer novamente destes ovos quebrados. Plantei um pé de feijão dentro da casca de um ovo, com algodão, e reguei todos os dias. O pé-de-feijão cresceu. O transferi para o quintal. Ele virou uma árvore e deu outros feijões. Sempre que ele dava feijão eu pegava e plantava nas cascas de ovo. Fiz isto ininterruptamente, sem saltar nenhuma geração, e fotografava todo dia o nascimento, crescimento e morte dos pés-de-feijão nas cascas de ovos. Tenho centenas de fotografias. O projeto durou dois anos, até que a senhora que contou esta história faleceu. Eu encerrei o projeto, ficando apenas os registros em fotografia. Para a exposição,optei por apresentar o projeto como instalação, ao invés das fotos, sendo que o público participou doando cascas de ovos quebrados. Para finalizar a instalação, resolvi acrescentar o pé-de-ovo, uma planta oriental, parente do jiló, que encontrei por acaso em uma floricultura, durante uma viagem a Brasília. O pé-de-ovo é a inversão espacial do projeto: em um, as plantas nascem dos ovos, no outro, os ovos nascem da planta. Esta inversão reflete também a inversão cronológica e simbólica do pedido.

 

CERTIFICADO DE AUTENTICIDADE: 

Declaro, para os devidos fins legais que o resultado obtido é a evidência concreta e incontestável da situação descrita pelo cliente, apesar das notórias discrepâncias cronológicas. Atesto não haver distinção de valor ou intensidade entre esta lembrança e qualquer outra de categoria similar, já ocorrida ou ainda por ocorrer.

 

Itens:

• Cascas de ovo branco

• Pés-de-feijão